Canção aos mortos


Com linhaça e tinta óleo,
pintei um dia a mais na vida
dos mortos que não tive.

Contornei seus espaços vazios,
preenchi seus campos e lagos,
e fiz um céu de azul cobalto em suas lápides.

Da vela triste que acendi
a luz era fraca. Era pouca.

Então fiz canções alegres,
entoei cânticos e toadas,
deixei janela aberta,
abri portas e porões.

Bebi aos mortos, celebrei seus dias.
Fiz da vida uma canção de partida,
uma canção de bem-aventurança,
não de tristezas, mas de alegrias.

Das alegrias de quem viveu vivendo,
das despedidas de quem morreu feliz.

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André Merez